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Planejamento tributário ou simulação? O risco por trás da divisão de faturamento
Publicado em 06/02/2026 23:59 • Atualizado 07/02/2026 00:02
Código da Gestão

Por muito tempo, dividir o faturamento em vários CNPJs foi tratado como um “jeitinho inteligente” para pagar menos imposto. Hoje, essa prática está cada vez mais próxima de um convite para uma autuação pesada. 

E não é opinião. É fato. 

A Receita Federal evoluiu. O cruzamento de dados ficou mais sofisticado, automático e contínuo. O que antes passava despercebido, agora aparece com clareza nos relatórios fiscais. 

Segundo Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal: 

“O planejamento tributário só é legítimo quando possui substância econômica real. Quando a forma jurídica é usada apenas para esconder a realidade, estamos diante de simulação.” 

E é exatamente aí que muitas empresas erram. 

 

 O nome técnico do problema: fragmentação artificial de receita 

Quando uma empresa cria vários CNPJs sem autonomia real (apenas para reduzir carga tributária) o fisco entende que há fragmentação artificial de receita. 

Na prática, isso acontece quando existe: 

  • mesmos sócios ou controle comum;
  • mesma estrutura física;
  • mesma equipe;
  • mesma atividade econômica;
  • ou mesma gestão financeira e decisória.

 

 Mesmo que os contratos estejam “bem escritos”, a Receita aplica o princípio da realidade sobre a forma: vale o que acontece na prática, não o que está no papel. 

O tributarista Heleno Torres, professor da USP, reforça: 

“Não basta criar pessoas jurídicas distintas. É necessário demonstrar autonomia operacional, econômica e decisória. Sem isso, há forte risco de descaracterização pelo fisco.” 

 

Como a Receita identifica esse tipo de estrutura 

Ainda existe a crença de que o risco só aparece com fiscalização presencial. Isso ficou no passado. 

Hoje, a Receita cruza: 

  • cadastro de sócios e vínculos familiares;
  • endereços, IPs, domínios e e-mails;

  • folha de pagamento e compartilhamento de funcionários;

  • movimentações financeiras entre empresas;

  • clientes, fornecedores e contratos semelhantes.

 
 
 Esses dados alimentam sistemas de análise que apontam inconsistências estruturais. Quando elas aparecem, o próximo passo costuma ser a autuação. 

 

As consequências não são leves 

Quando caracterizada a simulação, os efeitos são severos: 

cobrança retroativa de tributos (últimos 5 anos) 
multa de ofício que pode chegar a 225% (Lei nº 9.430/96, art. 44) 
enquadramento por simulação ou dissimulação (CTN, art. 116, parágrafo único) 
 juros, inscrição em dívida ativa e bloqueios 
impacto direto na reputação da empresa 

Segundo Eduardo Maneira, advogado tributarista e ex-presidente da OAB-RJ: 

“A falsa economia tributária costuma custar caro porque gera passivos inesperados, compromete o fluxo de caixa e afeta o valor da empresa.” 

O problema não é o imposto 

O problema não é o imposto. É confundir planejamento com improviso. 

Planejamento tributário não é dividir faturamento sem critério. Não é criar CNPJ para “fugir” de regime. Não é apostar que o fisco não vai perceber. 

Planejamento de verdade envolve:

  • análise de margem real;
  • coerência entre operação e estrutura societária;

  • escolha correta do regime tributário;

  • separação legítima de atividades (quando existe);

  • visão de médio e longo prazo.

 
A diferença entre economizar imposto e criar um passivo fiscal é uma linha muito fina. E quem não entende de estrutura, cruza essa linha sem perceber. 

 

O que poucos empresários sabem 

Existe um ponto em que o regime simplificado deixa de ser eficiente (e insistir nele passa a gerar mais custo do que benefício). É nesse momento que entram soluções estruturadas, previstas em lei, usadas por empresas mais maduras, que buscam: 

✔ previsibilidade de caixa 
✔ eficiência tributária 
✔ redução de dependência bancária 
✔ organização financeira de longo prazo 

Como explica novamente Eduardo Maneira: 

“O erro não está em buscar eficiência tributária, mas em ignorar instrumentos legais que permitem organizar o fluxo financeiro e fiscal de forma sustentável.” 

Ou seja: há alternativas, desde que bem estruturadas. 

 

Exemplos de caminhos mais inteligentes 

Sem falar em soluções mágicas, muitas empresas começam a olhar para: 

  • reorganização do fluxo de recebíveis;
  • separação correta entre operação e financiamento;
  • estruturas que transformam faturamento em liquidez planejada;
  • modelos que permitem crescer sem sufocar o caixa;
  • estratégias que alinham imposto, capital e expansão.

 Um exemplo prático está na locação de equipamentos como alternativa à imobilização. Ao invés de comprar máquinas e “travar” capital no ativo imobilizado, algumas empresas optam por: 

  • preservar caixa;
  • evitar endividamento bancário tradicional;

  • lançar os pagamentos como despesa, melhorando o resultado operacional;

  • em alguns casos, aproveitar créditos de PIS e Cofins, dependendo do regime. 

 
Ou seja: não se trata apenas de imposto, mas de gestão financeira inteligente. Essas soluções exigem análise, dados, governança e acompanhamento. 

 Não são improvisos. 

E o ponto central é claro:  não se trata de esconder receita, mas de estruturar melhor a operação financeira. 

 

 Onde entra a virada de chave 

Empresas que amadurecem financeiramente entendem que: 

  • imposto se gerencia, não se evita;
  • caixa forte vale mais do que faturamento alto;

  • estrutura importa tanto quanto venda.

 
Quando isso fica claro, o empresário deixa de perguntar: “como pagar menos imposto agora” e passa a perguntar: “como organizar meu crescimento sem criar riscos?” 

Essa é a pergunta certa.  

Lembre-se: Dividir faturamento não é planejamento. Mas, também não é verdade que o empresário esteja sem saída. Existem estruturas legais, inteligentes e sustentáveis para organizar o caixa, melhorar a eficiência tributária e preparar a empresa para crescer com segurança. A diferença está em como isso é feito. 

Se você sente que sua empresa cresceu, mas o modelo financeiro ficou para trás, talvez não falte faturamento, mas falte estrutura. Eu posso te ajudar a analisar o cenário, entender os riscos e mapear soluções possíveis, de forma técnica, responsável e alinhada à realidade do seu negócio. 

Sem promessas mágicas. 
Sem atalhos perigosos. 
Com estratégia. 

 Mais do que reagir a alterações legais, empresas maduras estudam, simulam e decidem com antecedência. Porque, no fim, o maior custo não está no imposto em si, mas em manter uma estrutura desalinhada por falta de análise. 

Acompanhe mais assuntos sobre gestão aqui na coluna e nas redes do Código da Gestão. 

 

Cristiane Soares 

Especialista em  FIDCs corporativos | Estruturação, estratégia e expansão de capital 

 
 
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